PREFEITURA NEGA REBAIXAMETNO DO LENÇOL FREÁTICO PELO BRT


Um dos capítulos mais críticos da “novela” do projeto BRT (Bus Rapid Transit ou, em português, Transporte Rápido por Ônibus), tocado pela prefeitura de Feira de Santana, é a possibilidade das escavações atingirem o lençol freático, nas duas trincheiras - no cruzamento das avenidas Getúlio Vargas com a Maria Quitéria e da avenida João Durval Carneiro com a avenida Presidente Dutra.


Formados pela infiltração das águas doces das chuvas no solo, os lençóis freáticos são “rios subterrâneos”, ou seja, reservatórios de água abaixo da superfície da terra. Com o rebaixamento do lençol, parte do terreno que antes tinha água passa a não ter e a região apresenta uma série de efeitos danos.

Na Maria Quitéria, a escavação “já ultrapassou a cota do lençol em torno de 1,5 m”, afirma o engenheiro civil Bruno Sodré num vídeo feito “in loco”, ao lado do vereador Beldes Ramos (PT), postado na internet no último sábado (21).  

Nas imagens, o engenheiro mostra água limpa borbulhando, brotando do chão e explica que o escoamento das águas subterrâneas está sendo feito através de bombeamento, com despejo na rua. Ao ser lançada na Maria Quitéria, a água vai para a rede de drenagem pluvial da Bacia do Rio Subaé, conforme o engenheiro.

A água também estava sendo lançada na Getúlio Vargas, indo até o bar Ponto do Zequinha e formando poças. De fato, qualquer pessoa que passasse por perto poderia ver a grande quantidade de água escorrendo pela avenida. Há cerca de uma semana, não se vê mais a água escorrendo ali.

“Onde a máquina trabalha, está uma água mais enlameada, por conta das escavações, uma água misturada com solo e, quando a água está suja, eles bombeiam para a Getúlio; quando ela é limpa, como é o caso aqui, é bombeada pra aquele poço de visita, pra aquela rede de drenagem ali na frente do Timbau [pizzaria]”, explica Bruno.

“Portanto, essa água aqui, limpa, está sendo desperdiçada sem outorga [licença ambiental emitida pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) para a prefeitura alterar o lençol freático]. É necessário lembrar pra os órgãos de meio ambiente competentes que aqui não tem outorga pra drenar água. Isso aqui é um crime ambiental, deveria dizer quantos litros vai tirar e pra onde, qual a destinação dessa água”, denuncia o engenheiro.

Na terça-feira (24), o secretário de Planejamento, Carlos Brito, e os engenheiros João Vianey e José Marcone de Souza, da equipe de coordenação do BRT na Secretaria de Planejamento, disseram, no programa Acorda Cidade, da rádio Sociedade AM de Feira de Santana, que o Inema já teria enviado técnicos ao local, que reconheceram que não há problemas que requeiram a outorga”.

O coordenador regional do Inema, Messias Gonzaga, disse à Tribuna que “constituímos uma equipe de quatro técnicos, os mais experientes da unidade, de várias formações acadêmicas, com geólogo, engenheiro civil, biólogo, engenheiro químico”, que estiveram na trincheira há cerca de 15 dias, quando a perfuração não havia atingido o lençol. “A prefeitura não solicitou outorga”, disse o ex-vereador.

Na segunda trincheira, onde “o lençol é mais à superfície” o Inema expediu documento afirmando que seria preciso a outorga antes de se iniciarem as obras, já que “os técnicos não têm dúvida de que o lençol freático na segunda trincheira será atingido”, declarou o coordenador. A prefeitura começou a obra mas ainda não solicitou a autorização. Messias disse que os técnicos do Inema estão analisando o vídeo da Maria Quitéria e se necessário voltarão ao local.

O engenheiro da comissão de acompanhamento das obras do BRT, João Vianey Silva, disse à Tribuna que, na Maria Quitéria, “a estrutura do pavimento está acima do lençol freático”, e por isso o lençol freático, segundo ele, não será rebaixado.

A água que estava sendo lançada continuamente nas ruas, conforme o engenheiro, provinha de carros-pipa e era usada na lavagem dos furos dos tirantes, que são uma espécie de cabo de aço travados a mais de 20 metros de profundidade, usados para segurar as paredes do equipamento. Ele conta que cerca de dez caminhões-pipa de água eram usados por dia.

Mas para o engenheiro Bruno, uma evidência de que o lençol foi afetado são tremores nas edificações vizinhas à obra na Maria Quitéria. Seriam resultado do processo de acomodação do solo após retirada da água. Vianey rebate assegurando que os tremores foram apenas vibrações do rolo compactador, utilizado no colchão de pedras.

Tunnel Liner
Em vez do sistema de bombeamento, antes das obras das trincheiras, o correto seria iniciar a construção do Tunnel Liner, conforme Bruno Sodré, para drenar e rebaixar o lençol d’água. Orçado em nada menos que R$ 22 milhões, trata-se de “um canal subterrâneo de 3 quilômetros para drenar a água da chuva e do lençol freático até a Avenida de Canal, que demora 600 dias para conclusão e ainda nem foi iniciado”, postou o engenheiro, que tem criticado incisivamente a obra de mobilidade urbana no Facebook. O Tunnel Liner faz parte do projeto, mas demora cerca de dois anos para ficar pronto.

Bruno atribuiu o início das trincheiras a “pressa em consumir os recursos, dado que as ações das Defensorias Públicas do Estado e União e Ministério Publico Federal devem no, próximo mês, obter definitivamente o julgamento do mérito da ação na 3ª Vara Justiça Federal de Feira de Santana, relacionado ao alegado desvio de finalidade no financiamento”.

João Vianey contesta. “Você pode criar um sistema provisório de drenagem que atenda o momento de execução e o início da obra. Após essa etapa, você faz o sistema e interliga. Então, assim, devido a algumas questões técnicas que foram sendo ajustadas no projeto executivo, foi necessário fazer as obras, criar um sistema provisório”, como está acontecendo nas duas trincheiras, e “posteriormente se cria o sistema definitivo”.

Assim como os drenos do pavimento, o Tunnel Liner será apenas para escoamento da água da chuva, já que não haverá conforme o engenheiro, rebaixamento do lençol.

NA JOÃO DURVAL
O nível d’água sob a avenida João Durval – onde as obras foram iniciadas dia 16 - está a apenas 3,59 metros da superfície e, ao mesmo tempo, este lençol está 1,5 m acima da futura pista rebaixada da avenida.

João Vianey afirma que a trincheira, na avenida, vai ficar abaixo do lençol e está sendo estudada a possibilidade de ser feita uma laje que controlaria o lençol freático, de modo que ele não possa adentrar a trincheira. Com isso não seria necessário o rebaixamento. A laje “já é o pavimento e já é uma estrutura de suporte que contém o lençol freático”, ele explica.

É possível, no entanto, que haja rebaixamento do lençol durante as escavações na João Durval, mas estudos estão sendo feitos para definir se essa ação será necessária.

Em ambas as trincheiras, haverá um colchão drenante, para proteger o pavimento, “de modo a evitar que, porventura na chuva, quando o lençol tem uma elevação, seja afetada a estrutura do pavimento”, explica Vianey.

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